A crítica e o elogio

A crítica e o elogio

Certo dia, em uma conversa de bar, um grande professor me disse que existem dois tipos de estudantes ou profissionais, do ponto de vista daquilo que os estimula a aprimorar e a crescer ainda mais: os filhos da crítica e os filhos do elogio. Em resumo, há aqueles que vêem na crítica um desafio, um pontapé que os faz correr atrás do prejuízo; e existem aqueles que, ao serem elogiados, esforçam-se ainda mais para manter o bom padrão.

Pois bem. É lógico que os dois cenários se misturam, e que tanto a crítica quanto o elogio são necessários para uma boa formação cidadã, intelectual, moral e afins. Ninguém vive somente de um ou de outro. No entanto, me parece que a análise carrega sim um pouco de verdade – ao menos eu consigo me enquadrar facilmente em uma das categorias.

Sou assumidamente uma filha do elogio. Quando sinto que é genuíno, e não um cacoete (pois nada pior do que uma palavra vazia) , logo me encho de planos e projetos. Hoje, por exemplo, recebi um comentário bom e inesperado sobre meu texto. Pronto, motivo para recuperar a ânsia pela escrita, planejar um novo blog inteirinho (temático, quem sabe?), uma crônica ou melhor: um livro! Por que não?

Mas um aspecto que meu professor esqueceu de incluir na equação é a autocrítica. Nayara, você não consegue atualizar nem esse blog com uma certa decência, e ainda tem muito a aprender. Vamos sonhar com o pé no chão, vamos?

Telefonofobia

Telefonofobia

Quando era adolescente, não entendia essa aversão dos adultos pelo telefone. Como não ficar curioso com as possibilidades de um chamado assim repentino? Poderia ser uma tia convidando para o almoço de domingo ou uma amiga querendo conversar sobre os últimos acontecimentos do colégio. Um lojista comunicando que sua encomenda chegou, o dentista pedindo para desmarcar a consulta. E se fosse alguém querendo vender um produto, tudo bem… Era só dizer que a mãe não estava em casa.

Pois é, meus caros. Como numa epifania, agora os compreendo perfeitamente. A partir de certo momento na vida, ninguém que ligue em seu telefone fixo pode ter boas intenções. Por trás do toque estridente do aparelho não estarão seus amigos, muito menos prazerosos convites. Você já não se livrará tão facilmente da atendente de telemarketing, afinal sua voz e entonação indicam que já tem idade suficiente para escutar certas propostas de compra. “Mas, mas… Você não quer falar com a minha mãe? Ela está logo aqui do lado”.

Não vou nem entrar no mérito do telefone comercial. Lá as conversas ganham um novo vocabulário: deadlines, metas, demandas, cobranças, atrasos, fechamento. Se na minha adolescência era a primeira a levantar da cama para atender o aparelho, agora olho para os lados, esperando que outros tomem a iniciativa. “Nay, é pra você”.

Diz que não estou, diz?

O assassinato da bolha de sabão

O assassinato da bolha de sabão
Nasceu do sopro de um moço voraz
e de um aro ensebado em detergente.
Logo voou sem olhar para trás:
mesmo pequena era independente.

Deixou a brisa traçar sua rota,
imaginou o mundo dentro de si.
Toda uma vida naquela bolota,
e  um colorido que contempla e sorri.

Bem se desenrolava o enredo,
mas eis que a bolha foi tomada pelo choque,
quando sentiu perto de si um dedo.

Colericamente, com ar de não me toque,
foi dessa maneira que, muito cedo,
a bolha esmoeceu fazendo ploc.

Nessa data querida

Nessa data querida

Quando a página do dia 31 de dezembro de 2011 ficou cheia com os compromissos de 2012 – infelizmente, todos profissionais –, resolvi comprar uma agenda. Não que eu precisasse de uma grande desculpa. Sabe como é, sigo o estereótipo da classe: jornalista viciada em café e em papéis, bloquinhos, cadernos e post its.

Enfim. Eis que uma das minhas primeiras rotinas ao abrir uma agenda nova é anotar os aniversários alheios, cuidadosamente marcados em seus respectivos dias. O método é bastante rudimentar, admito, mas não quero entrar nesse mérito. Fato é que todo final de ano sento com a agenda velha e a nova, comparando página a página e repassando o que for pertinente.

E qual não foi a minha surpresa ao perceber que o simples ato de atribuir aos aniversariantes uma data iria fazer com que eu parasse ao menos meia hora para pensar nas minhas histórias com os amigos, familiares, conhecidos, clientes e quem mais fizesse parte da lista. Explico:

Todo esse processo não significa uma mera reprodução dos aniversariantes marcados no ano anterior. Com exceção dos meus pais, irmão e namorado, que obrigatoriamente ganham um emoticon sorridente ao lado do nome (coraçãozinho no seu caso, Rafa!) e mais alguns poucos, os outros contatos recebem um tratamento diferente do que teve na agenda de 2011.

A Adri virou Adriana, o Zé virou José Antônio, o Cabeça virou André B. – reflexo representativo e quase inconsciente do que a minha relação com cada um desses personagens (fictícios, a título de exemplo) se tornou. Já a Viviane virou Vivi, o Leonardo ficou esquecido em alguma página distante da agenda de 2009, enquanto novos nomes passam a integrar a lista. Um movimento natural, eu sei, mas que não perde o seu caráter nostálgico – talvez seja por isso que o final de ano é conhecido como uma época de reflexões e lembranças.

Por essas e outras, muitos adotam a postura de não andar falando por aí a data do seu aniversário. Colocar no Facebook então? Nunca! “Quem realmente importa, sabe”. Concordo. Eu, no entanto, não seria assim tão radical. Não lembro por mim mesma do aniversário de várias pessoas, mas penso com carinho e desejo sinceras felicidades a muitos dos que ali surgem no cantinho da tela ou da agenda.

É verdade que nem sempre verbalizo o parabéns, ou então que a distância e a falta de intimidade acabam tornando o recado simplista. Felicidades, saúde, sucesso, coisa e tal. Porém, enquanto escrevo, sempre recordo de histórias interessantes. “Esse aí costumava fazer as melhores piadas da sala!”. E sorrio.

Gosto de pensar que algumas das pessoas que só lembram do meu 23 de julho pela agenda pensem a mesma coisa – esteja eu marcada como Nay, Nayara ou Nayara Brante.

Zica

Zica

Aos mais desavisados, informo que vou me mudar. De uma casa com um terreno enorme a um pequeno apartamento no Cristo Rei, vários aspectos me deixam muito animada e ansiosa pela mudança. Ou deixavam, até uma das despedidas mais doloridas dos últimos tempos.

Para mim e para meus pais, a Zi é membro da família. Ela é e sempre vai ser a Zica Brante. Ainda que nosso apartamento não comporte um cachorro de aproximadamente 40 kg, nós não deixamos de nos preocupar com ela ou de amá-la. Mas agora a Zi faz parte de outra família. A vocês que estão cuidando dela, deixo alguns breves recados:

A Zica gosta de cantinhos apertados. Pode ser atrás das plantas, entre o vão dos sofás, debaixo da mesa… Por favor, reserve um espaço como esse, em especial nos dias com trovão ou de foguetório. Melhor ainda se for um local em que vocês estejam por perto. Ela, que não é boba nem nada, adora companhia e cafuné na cabeça, atrás das orelhas e na barriga.

A Zica odeia batatas e ervilha. De alguma forma, ela consegue separar grão por grão e deixa tudo no prato – melhor nem desperdiçar. No café da manhã, ela gosta de sentar no tapete da sala, filando uma coisinha aqui e outra ali (isso inclui frutas). Mas, se você achar que ela está muito pidoncha, é só falar com calma que ela obedece, sim senhor.

Se você chegar cansado do trabalho, tirar o sapato e as meias, ela vai começar a lamber seus dedos do pé, delicadamente. Faz cócega e não parece muito higiênico, mas duvido que você consiga conter o sorriso com um gesto que os cachorros costumam fazer com seus próprios filhos.

Quando você estiver triste, ela vai sentar ao seu lado e encostar a cabeça no seu colo. Em silêncio, vai olhar para cima e abanar o rabo, delicadamente. “Não fica triste, vamos brincar!”. Ah, brincar! Com todo aquele tamanho, vai ser difícil ganhar as disputas de força e corrida. A dica é não parar, pois em determinado momento ela cansa e deixa você vencer.

O resto eu deixo que vocês descubram sozinhos. Mas não se esqueçam do cafuné na cabeça e atrás das orelhas, ok? Zica, espero que esteja bem, e com menos saudade do que eu. Love ya!

O baile

O baile

“Como é terminar a faculdade?”. Escutei muito essa pergunta durante o baile de formatura, e a minha resposta foi sincera: é maravilhoso. Foram quatro anos bons, mas a sensação de dever cumprido, orgulho e alívio é intoxicante. Nessas horas, nós queremos tudo ao mesmo tempo, os amigos, os amores, a música, a bebida, toda a diversão que se pode conseguir em uma noite.

Mas tem um momento da festa que olha, vou te contar. Você está dançando, e a última música começa a soar calmamente. Era Zeca Baleiro, o meu cantor preferido. De mansinho, voz suave, ficando mais baixo, mais baixo, mais baixo… E fim. “Com licença, moça, nós precisamos fechar a casa”.

Ao meu redor, muitos ainda brincam e dançam. Aos poucos, cada grupo de amigos vai se retirando, sandálias na mão, havaianas nos pés, enfileirando-se em busca de um táxi. Durante a faculdade, não cheguei a conversar com grande parte deles.  Outros me irritavam a cada aula, enquanto muitos me divertiam de forma distante. Todos ali, juntos por uma noite que parece ter durado apenas meia hora.

Acabou. Finito. No more, adiós, hasta la vista. Eu já vi isso acontecer no ensino médio: pessoas com quem você talvez não converse muito, mas que gosta mesmo assim, indo embora para raramente voltar. O contato eventualmente vai se resumir a um encontrão na rua, um parabéns pelo facebook. É normal, e não adianta fingir que não vai acontecer. (É claro que fiz bons amigos, e esses não vão embora – não é a eles a quem me refiro).

Movida por todo esse sentimentalismo e um pouco pelos shots de tequila, confesso que deixei cair uma lágrima ou duas. Acho que ninguém viu – por sorte, pois se alguém me abraçasse naquele momento, as lágrimas se multiplicariam. Tive tempo de me recompor, colocar um sorriso no rosto novamente, despedir-me dos meus convidados e também sair pela porta do clube.

Até mais, florestais, sucesso a todos. Espero encontrá-los em breve.

Dalva

Dalva

A porta é pequenininha, espremida entre um estúdio de tatuagem e uma dessas casas antigas, típicas do Largo da Ordem. A única identificação do estabelecimento é um toldo amarelo ovo, com a inscrição “Salão de Beleza”. Lá dentro, um sofá desbotado, duas cadeiras e alguns apetrechos estão espalhados em um ambiente sem nenhuma divisória. As paredes já estão descascadas, mas todas as estantes são muito limpas e enfeitadas com paninhos de crochê.

A dona do salão se chama Dalva, uma senhorinha magricela, beirando os 70 anos de idade. Pele morena, mãos tremulas e um sotaque nortista que só consigo classificar como quente, apesar da estranheza do adjetivo. É para ela que pergunto se há horário disponível para fazer uma escova no cabelo, afinal não queria aparecer com cabelo de louca na colação do namorado. Com um leve sorriso no rosto, ela levanta lentamente do sofá. “Quer lavar com água quente ou mais ou menos?”.

Todas as frases de Dalva são assim, simples e diretas. Os movimentos, extremamente delicados – não sei se mais por sua personalidade ou pela idade, que dá à cabeleireira a graça que só as pessoas idosas têm. Ela lavou meu cabelo com o carinho de uma mãe, enquanto me explicava que não era bom deixar nenhum resíduo de xampu ou condicionador nos fios. “Você viu o programa da Ana Maria Braga ontem? Ela tava falando disso”.

Não vi o programa, mas acreditei em Dalva. Ela também me mostrou vários produtos para o cabelo, uma pomadinha para domar o frizz e duas revistinhas da Avon, “para olhar sem compromisso”. A conversa foi daí para os pré-carnavais do Largo da Ordem, que ela gostava de observar pela janela de sua casa, e para a sua dúvida de que o mundo iria acabar em 2012. “Como é que alguém pode saber disso com tanta certeza? Tem muita gente no mundo pra acabar tudo de uma vez, é só entrar ali no terminal e ver o tanto de gente que tem”.

Enquanto isso, Dalva se esticava e contorcia, ficando na ponta do pé para alcançar o topo da minha cabeça. A escova, no entanto, foi a mais cuidadosa que consigo lembrar de ter feito – ainda que eu tenha levado várias broncas da cabeleireira, por ser “tão bonita, mas ter um cabelo tão seco”. A rispidez, porém, era momentânea. Logo depois dos puxões de orelha, ela me oferecia um corte de pontas do cabelo, completamente de graça.

Recusei a oferta, mas sorri e agradeci. Ela também sorriu, enquanto terminava de me pentear. No fundo, nada do barulho constante de secador de cabelo, nenhuma luz brilhante ou manicures disputando um espaço para pintar as unhas de suas clientes. Ali, no silêncio de um salão de rua praticamente escondido, criei um carinho gratuito por essa mulher. Prometi voltar na próxima semana, dessa vez para a colação de uma amiga.

Na minha, na sua, na nossa época

Na minha, na sua, na nossa época

Eu sempre fico mais quieta no Natal. O que pode soar uma completa incoerência para muitos, para mim é absolutamente normal. Não gosto da data – confesso logo de cara para que não esperem um discurso de propaganda de margarina. Mas com tantos jantares e eventos, gosto de observar o movimento, as pessoas e, principalmente, escutar as histórias e lembranças dos adultos, que com o passar da noite vão ficando mais e mais tagarelas.

Nesse ano, no meio de um turbilhão de conversas, um detalhe me chamou a atenção. Aqui e ali, eu pescava um temido “na minha época”. É incrível como a expressão é recorrente. “Na minha época, não havia tantos divórcios”. “Na minha época, tirávamos fotos para recordar um momento, e não somente para colocar no Orkut”. “Na minha época não existia Restart”.

Sinto ser estraga prazeres, mas menos divórcios não significam que os casamentos eram mais felizes. Compartilhar fotos com amigos que você não veria a não ser de forma virtual pode ser muito divertido e, se antes não havia Restart, minhas amigas e eu adorávamos imitar as coreografias do É o Tchan.

A retórica do “na minha época” é um cacoete, não um argumento ou explicação. Pessoas e gerações mudam, e quando não entendemos muito bem o que está em jogo nos abraçamos ao passado. Ao presente, nos resta condená-lo o pior dos mundos. Não haveria tanto problema se a frase não acompanhasse um ar de superioridade. “A gente sim aproveitava a vida”, “nosso tempo era melhor”, “vocês não sabem o que perderam”.

Não, nós não sabemos. E por isso mesmo sempre me divirto ao escutar peripécias que hoje não podemos repetir. Porém, seria muito melhor se as histórias não envolvessem comparações vazias e lições de moral. Vamos lá, pessoas, vamos rir de nós mesmos… Parece tão mais divertido :)

Só cuidado para não tropeçar

Só cuidado para não tropeçar

Experimente parar no meio de um local movimentado e olhar para cima. Dizem que você irá despertar a atenção de todos, que buscam o motivo para um gesto assim tão inusitado. Mas curiosidade e comportamento humano à parte, faço aqui um novo convite: experimente olhar para cima, simplesmente. Deixe de lado a preocupação com quem passa, e preste atenção em um novo pedaço da cidade.

Se você passar sempre pelas mesmas ruas, como eu, a impressão é ainda mais interessante. Afinal, estamos acostumados com as lojas, com o relevo da calçada e os sinaleiros, mas você sabe como o topo de cada prédio é diferente? Alguns são futuristas, outros são coloridos e pontudos feito chapéu de aniversário. E aquela barbearia no Centro é na verdade só um pedacinho de um hotel barato, com as paredes verdes descascadas. Esses dias eu descobri que a fábrica vizinha à minha casa tem uma rachadura enorme, visível somente aos que inclinam um pouco o pescoço.

Já adianto que você vai ficar conhecido como uma pessoa distraída, com a cabeça nas nuvens. Ou então vão comentar que tem ares de Ted Mosby. Ossos do ofício.

O buraco é mais embaixo

O buraco é mais embaixo

Quando pensei em escrever um post sobre minha experiência como coletora de justificativas nessas eleições, a primeira ideia era contar as bizarrices e frases célebres que escutei durante todo o dia – foram tantas que com certeza esse post vai sair, mais pra frente. Mas a única coisa que consigo pensar no momento é como essa experiência me deixou triste. Triste porque tentei ajudar todas as  pessoas que me procuraram, nem que fosse apontando qual era a sala em que elas deveriam votar, mas tudo o que eu sentia no momento era vergonha – de mim mesma, e da sociedade como um todo.

Veja bem, as pessoas que conheci moram em um bairro pobre, violento, longe de qualquer oportunidade. Um bairro que é o mesmo que o meu, mas nossas situações são completamente diferentes: eu tenho muros altos para me proteger, um curso universitário, uma família bem estruturada e oportunidades pulando aqui e ali. Não, definitivamente eu e meus vizinhos não vivemos no mesmo mundo. Essas pessoas com quem conversei mal sabem escrever o próprio nome – e para quem pensa que estou falando dos senhores e senhoras, não. Estou falando de jovens com dois ou três anos a mais do que eu, penando para desenhar cada letra. Com vergonha de falar que são analfabetos, e que precisam assinar com o bom e velho polegar. Correndo entre os corredores, porque não podem se atrasar para o trabalho. Para eles, não há descanso.

E, já não bastasse tudo isso, aguentam as piadinhas sussurradas por mesários, auxiliares e fiscais. “Esse povo do Bolsa Família é foda, fica estorvando a fila”. “Vota faz quantos anos e não sabe onde tem que ir ainda?”. “Ai, quanta gente burra”. E depois, ao chegar em casa, a internet está rodeada de comentários de como o eleitor é ignorante, como o eleitor nos causa vergonha, como o brasileiro é uma praga. Como votar em determinado candidato só porque ganha benefício é uma atitude de gente pequena.

Não, nós não sabemos votar. Sim, nós somos ignorantes. Mas você sabe o que isso realmente significa? Porque eu não sei, assim como não sei a solução para esses problemas. Ao menos, aprendi a ponderar.